quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Arroz Malandro


" O teu olhar tem qualquer coisa de miúdo, como se tivesses escolhido nunca crescer por completo, apesar dos prémios, do reconhecimento, do apartamento no centro da cidade com porteiro e garagem, de uma vida que te querem impor com regras e golpes de diplomacia e que te recusas como quem deixa um gelado a meio, porque não te apetece.
Gostei logo do teu ar de índio que sabe negociar a paz com paciência e alguma manha, sentado numa cadeira a espiar-me pelo canto do olho, sem saberes muito bem como chegar até mim e eu ali mesmo ao lado, a pensar o mesmo, a sentir o teu coração a bater pelo meu, só de te ter visto de relance, por mero acaso, no mesmo espaço ao mesmo tempo, o tempo certo para os dois.
Não sei há quanto tempo foi, o tempo nunca conta quando se começa uma viagem, não conta o sono porque sobra sempre pouco tempo para dormir, a hora do almoço é empurrada para as quatro e o jantar nunca é antes das dez só para estarmos juntos como dois refugiados que se encontram no caminho e decidem partilhar o mesmo destino.
Agora olho para trás e percebo que andavas por aí, mas como és discreto e sossegado nunca te consegui ver, mesmo quando me vias por todo o lado. Não sei como não desisti, mas a verdade é que nunca deixei de sonhar, nunca deixei de acreditar que a vida me podia dar o que quero e mereço e se calhar é por isso que as pessoas confiam em mim quando lhes vendo os meus sonhos em folhas cheias de histórias e de desjos. "

"Pedi-te sem te dizer nada para não saíres da minha vida, porque não quero voltar ao caminho dos refugiados, não me apetece desistir, deixar de acreditar, voltar atrás e ter de esquecer o que foi importante, quando tu me disseste, desta vez com palavras, que estavas igual a mim, um bocado farto da solidão povoada, de acordar e fingir que está tudo bem, que é só mais um dia para à noite mergulhares no casulo ao lado onde ninguém te via e tu não vias ninguém.
A vida ensinou-me poucas coisas e com o passar dos anos só aprendi que tudo se desaprende e tudo muda, por isso confio mais em mim do que nos outros e sei que o apego é como uma droga leve, que vai tomando conta de nós todos os dias mais um bocadinho, mas se tudo correr bem, o medo acabará por se ir embora e poderei enfim descansar mesmo durante a viagem, desde que estejas por perto, dessa forma tão sábia e subtil que só tu conheces."

"Mais do que as palavras ditas, e tu dizes poucas e por isso é que as oiço todas, foi o teu olhar de miúdo com o brilho dos dez anos e o sorriso de 12 que me entrou no coração como uma flecha do deus voador senhor das setas doces e fiquei sem resposta, com a garganta a dar nós e laços sozinha.
Não sei quantas formas de amor existem no mundo, mas se os árabes têm 99 nomes diferentes para o mesmo deus, então os homens podem inventar infinitas formas diferentes de amar. E eu quero inventar algumas contigo."

 Margarida Rebelo Pinto

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